MPF processa Vale, União e Estado do Pará pela contaminação dos indígenas Xikrin do Cateté por metais pesados — Procuradoria da República no Pará

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Indígenas

24 de Fevereiro de 2025 às 17h48

MPF processa Vale, União e Estado do Pará pela contaminação dos indígenas Xikrin do Cateté por metais pesados

Quase todos os indígenas apresentam níveis alarmantes de elementos químicos em seus organismos, alertam pesquisas

margem de rio com sedimento de cor laranja avermelhada, nitidamente contendo material ferroso ou laterítico.


Foto: Reginaldo Saboia de Paiva

O Ministério Público Federal (MPF) entrou, na última sexta-feira (21), com ação contra a mineradora Vale, a União, e o Estado do Pará devido à contaminação por metais pesados dos indígenas Xikrin do Cateté, causada pelas atividades da Vale, conforme apontam estudos técnicos. A ação foi proposta na Justiça Federal e busca garantir o acesso imediato e integral ao tratamento médico para descontaminação, incluindo consultas, exames e medicamentos, custeado pela Vale.

Além disso, o MPF exige a implementação de um programa de monitoramento contínuo da saúde da comunidade – conforme obrigações estabelecidas no licenciamento do empreendimento Onça-Puma, da Vale – e a apresentação de relatórios semestrais. O MPF também busca responsabilizar a União e o Estado do Pará a garantir suporte técnico e administrativo e fiscalizar as condicionantes ambientais, respectivamente.

O procurador da República Rafael Martins da Silva enfatiza a urgência da situação, comparando-a com a crise enfrentada pelos Yanomami, que levou a Corte Interamericana de Direitos Humanos a determinar medidas urgentes em 2023 contra a contaminação por mercúrio. O membro do MPF também destacou a responsabilidade objetiva da Vale, conforme a legislação ambiental brasileira.

Contexto – A Terra Indígena (TI) Xikrin do Cateté, onde vivem 1,7 mil indígenas, está localizada no sudeste do Pará e é irrigada pelos rios Cateté e Itacaiúnas. A TI está rodeada de empreendimentos minerários da Vale, com destaque para a mina Onça-Puma, de exploração de níquel.

Os indígenas estão sendo diretamente contaminados pela disseminação de metais pesados nos rios Cateté e Itacaiúnas, decorrente das atividades mineradoras conduzidas, sobretudo, pela Vale e licenciadas pelo Estado do Pará, aponta o MPF.

A ação registra que a contaminação dos indígenas Xikrin do Cateté vem sendo denunciada por instituições e pesquisadores e está amplamente comprovada por análises técnicas. Esses estudos revelam a presença alarmante de substâncias tóxicas como chumbo, mercúrio, bário, lítio e manganês nos organismos dos indígenas, impactando diretamente sua saúde e qualidade de vida.

Impactos – Os impactos dessa poluição são diretos e devastadores, refletindo-se no aumento expressivo de doenças crônicas, malformações congênitas e no agravamento das vulnerabilidades sanitárias da comunidade indígena, indica a ação.

De acordo com o MPF, estudos técnicos, como o “Relatório da campanha de averiguação de metais pesados em excesso nos organismos dos indígenas Xikrin do Cateté”, confirmam que 99,7% dos 720 indígenas analisados apresentam níveis alarmantes de elementos químicos em seus organismos, sendo 98,5% contaminados por metais pesados perigosos. O relatório foi coordenado pelo professor Reginaldo Saboia de Paiva, da Universidade Federal do Pará (UFPA).

A pesquisa, realizada em maio de 2024, revelou casos graves, como uma jovem de 19 anos com 2.326% de níquel acima do limite seguro e uma criança de um ano com altos níveis de alumínio, bário e chumbo.

“A contaminação humana por excesso de metais pesados é calamitosa e praticamente exibida em 99% dos indivíduos da reserva e necessita de atenção imediata das autoridades na aplicação de medicina especializada em busca da desintoxicação dos indivíduos da comunidade Indígena Xikrin”, ressalta o pesquisador Reginaldo Saboia.

“A disseminação desses poluentes no ambiente também compromete fontes tradicionais de sustento dos Xikrin, como a pesca e o uso da água para consumo e atividades diárias, ampliando o risco de contaminação e perpetuando um ciclo de doenças e degradação socioambiental”, alerta o procurador da República Rafael Martins da Silva.

 

Processo 1001462-67.2025.4.01.3901

Íntegra da ação

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Fonte MPF