MPF investiga se houve embaraço do estado de RO à atuação da Ouvidoria Agrária Nacional em Machadinho d’Oeste — Procuradoria da República em Rondônia

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Direitos do Cidadão

28 de Novembro de 2025 às 13h20

MPF investiga se houve embaraço do estado de RO à atuação da Ouvidoria Agrária Nacional em Machadinho d’Oeste

Operação de reintegração de posse interrompeu reunião da ouvidoria para apurar denúncias de abusos policiais contra trabalhadores rurais

Arte retangular com foto em preto e branco de trabalhadores rurais arando a terra. Um dos homens levanta uma picareta enquanto o outro usa uma picareta na terra. Em amarelo as palavras Reforma Agrária


Arte: Comunicação MPF

O Ministério Público Federal (MPF) expediu ofício à Secretaria de Estado da Segurança, Defesa e Cidadania (Sesdec) de Rondônia pedindo informações sobre supostos conflitos entre policiais militares, oficiais de Justiça e servidores do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). O pedido tem relação específica com fato ocorrido em Machadinho d’Oeste (RO) no dia 23 de novembro, quando uma operação de reintegração de posse foi iniciada durante o andamento de uma reunião da Ouvidoria Agrária Nacional com trabalhadores rurais acampados.

O MPF questionou a Sesdec sobre a distância do local da reunião em que estavam os camponeses em relação às áreas dos imóveis objetos das ações de reintegração de posse. A secretaria também deve informar se houve exigência de identificação das pessoas que estavam na reunião para que pudessem ser liberadas, se a determinação foi da Polícia Militar (PM) ou de oficiais de justiça e se houve impedimento de saída de pessoas do local da reunião, caso não se identificassem.

O órgão também enviou ofício à Superintendência do MDA em Rondônia para que encaminhe um relatório detalhado de todos os fatos ocorridos em Machadinho do Oeste em 23 de novembro com relação aos conflitos narrados entre a comitiva da Ouvidoria Agrária Nacional – formada por servidores do Incra e do MDA – e a PM de Rondônia e oficiais de Justiça.

O MPF pretende verificar se as ações de reintegração de posse seguiram as normas estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) n° 828, na qual a corte determinou a suspensão de despejos de pessoas vulneráveis e a criação de comissões para mediar conflitos fundiários e dar suporte aos juízes nesse tipo de ação, evitando, com isso, despejos liminares sumários sem a audiência da parte contrária e sem a devida mediação.

‘Fichamento’ – Uma preocupação do MPF é que o ‘fichamento’ de quem participa de movimentos sociais de luta pela terra, em inquérito policial genérico, seja motivo de imputação de crimes a essas pessoas. Episódios desse tipo já ocorreram em outras ocasiões, levando o MPF e outras instituições públicas a recomendar ao estado de Rondônia a não criminalizar movimentos sociais ou de tratar a participação nesses movimentos como crime. Mesmo após a recomendação, ocorrida em 2017, relatos de ‘fichamentos’ voltaram a ser denunciados ao MPF.

Versões – No mesmo dia 23 de novembro, em uma nota à imprensa, o MDA relatou que uma comitiva da Ouvidoria Agrária Nacional foi a Machadinho d’Oeste para fazer reunião com trabalhadores rurais acampados a fim de apurar denúncias de violência de integrantes da Polícia Militar (PM) e de pistoleiros contra acampamentos que reivindicam imóveis rurais do Grupo Di Gênio para a reforma agrária. O MDA informou, na nota, que recebeu inúmeras denúncias de excessos no cumprimento de ordens judiciais de reintegração de posse, incluindo a destruição de acampamentos que estavam fora das áreas em litígio e a morte de dois trabalhadores rurais pela PM em circunstâncias vistas como suspeitas.

Ainda segundo a nota do MDA, a reunião com os acampados ocorria fora dos locais que são objeto do conflito agrário e das ordens judiciais, quando dois oficiais de justiça do Tribunal de Justiça de Rondônia (TJ/RO), acompanhados por dezenas de policiais militares, cercaram o local e só permitiram a saída das pessoas mediante a prestação de dados pessoais e a assinatura pessoal, sob pretexto de realizar a citação de réus nos processos de reintegração de posse.

A nota segue informando que a chegada do comboio gerou grande alvoroço e impediu a continuidade da reunião. Segundo o MDA, durante horas, os presentes ficaram confinados no local da reunião, por temerem fornecer informações que pudessem chegar nas mãos de grupos que incitam abertamente a violência contra os trabalhadores rurais, como o grupo ‘Invasão Zero’. O MDA finalizou a nota à imprensa afirmando que houve prejuízos à apuração dos fatos e que toda a situação ocorreu perante uma equipe do governo federal, incluindo o próprio ouvidor agrário nacional. O ministério pediu que as pessoas coagidas a se identificar sejam protegidas pelas autoridades e que o interdito proibitório que impede os trabalhadores rurais de retornarem às suas casas seja revogado.

Já a Polícia Militar de Rondônia se manifestou pela imprensa informando que atuou em estrito cumprimento de ordem legal e que a atuação ocorreu de forma transparente e respeitosa, em cooperação com agentes da Justiça e outros órgãos estaduais. O TJ/RO também emitiu nota informando que as operações realizadas em Machadinho d’Oeste foram em cumprimento de decisões liminares emitidas pelas 1ª e 2ª Varas Genéricas da comarca, referentes a quatro ações possessórias envolvendo áreas. O tribunal também informou, pela imprensa, que foi instaurado procedimento junto ao Ministério Público do Estado de Rondônia (MPRO) para apuração das duas mortes durante a operação de reintegração de posse, além de afirmar que o direito de reunião ou de liberdade de locomoção foram respeitados.

Assessoria de Comunicação 
Ministério Público Federal em Rondônia
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Fonte MPF