7/1/2026 – O início de um novo ano nos remete à sensação de recomeço e nos convida a refletir, traçar planos e projetar mudanças. É nesse contexto que surge o Janeiro Branco, campanha que busca estimular a reflexão, o diálogo e o cuidado com a saúde mental, incentivando as pessoas a falar sobre emoções, sofrimento psíquico, qualidade de vida e prevenção de transtornos como ansiedade, depressão e burnout.
A data foi institucionalizada por meio da Lei 14.556/2023, que prevê ações nacionais para abordar e promover hábitos e ambientes saudáveis e prevenir doenças psiquiátricas, com enfoque especial na prevenção da dependência química e do suicídio. A campanha alerta para a importância de não ignorar sintomas ou sinais de fragilidade emocional e mental, quebrar tabus e fortalecer uma cultura de cuidados constantes, seja na vida familiar, social ou organizacional.
Durante todo este mês, o Tribunal Superior do Trabalho publicará matérias com decisões judiciais que abordam a temática da saúde mental, como forma de ampliar o debate e chamar a atenção para a importância do cuidado emocional no ambiente de trabalho. A proposta é sensibilizar a sociedade, empregadores e trabalhadores para os impactos do adoecimento mental e mostrar o papel da Justiça do Trabalho na proteção da dignidade humana e na promoção das relações de trabalho mais saudáveis e equilibradas.
Afastamentos vêm aumentando a cada ano
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgados em setembro de 2025, revelam que mais de um bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais, e a ansiedade e a depressão são as condições mais prevalentes.
Em complemento a isso, o Ministério da Previdência Social (MPS) registrou um crescimento alarmante dos afastamentos por saúde mental no Brasil: em 2024, foram concedidas 472 mil licenças, 68% a mais que em 2023. Com relação a 2025, dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) mostram um aumento de 143% nos afastamentos do trabalho por transtornos mentais.
Entre as doenças que mais geraram benefícios por incapacidade temporária, novamente, se destacam a depressão e a ansiedade. Juntas, elas somam quase meio milhão de casos, o maior número em pelo menos 10 anos.
Os números só comprovam como as pessoas estão cada vez mais adoecidas mentalmente e apontam para a urgência de politicas institucionais de acolhimento e prevenção, uma vez que as consequências desses transtornos vão muito além do afastamento do trabalho.
Reconhecer limites é primeiro passo
Em meio a metas e expectativas, muitas vezes ignoramos os sinais de adoecimento emocional. O bem-estar individual é diretamente influenciado por pressões constantes, excesso de trabalho, insegurança financeira, conflitos nas relações, falta de reconhecimento no trabalho e o desafio de equilibrar vida pessoal e profissional.
Segundo a psicóloga Ana Letícia Clemente Tavares, do TST, um ambiente de trabalho saudável deve ser um espaço de reconhecimento, de cooperação e de possibilidade de expressão tanto das nossas potencialidades quanto dos nossos limites. “Reconhecer limites não é uma fragilidade. Ao contrário, é um ato de responsabilidade e de cuidado fundamental para a preservação da saúde mental”, explica. “O sofrimento surge, muitas vezes, quando a pessoa é levada a negar seus próprios limites para atender a demandas excessivas e metas inalcançáveis”.
Investimento em bem-estar melhora resultados
Manter uma cultura organizacional que valorize o bem-estar é essencial não apenas por empatia, mas porque reduz riscos e custos e melhora resultados. Empresas que investem na promoção de um ambiente de trabalho saudável também tendem a reduzir o absenteísmo, aumentar a produtividade e obter ganhos econômicos. O cuidado com a saúde mental do trabalhador, portanto, vai além do impacto social e influencia diretamente os resultados e a sustentabilidade das organizações.
Segundo Ricardo Franco, vice-presidente de saúde e bem-estar no trabalho da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH/DF), o mundo do trabalho assistiu, nos últimos anos, ao aumento dos afastamentos por adoecimento mental sem efetivamente ser capaz de interromper esses eventos. “A única forma de antecipação, em nível corporativo, é a organização implementar uma Governança de Riscos Corporativos (GRC), que inclui gestão e gerenciamento de riscos em diversas categorias”, explica.
Ao implementar essa ferramenta, a organização passa a contar com um sistema prático e estruturado de prevenção ao adoecimento mental relacionado ao trabalho. “Isso envolve desde a definição de um objetivo estratégico específico voltado à prevenção da saúde e bem-estar do trabalhador, com metas claras e alcançáveis, até a qualificação de gestores e líderes hábeis para conduzir suas equipes sem comprometer a saúde dos profissionais”, assinala. “Além disso, é necessário operacionalizar mudanças adequadas para adaptar o trabalho ao trabalhador, e não o contrário.”.
Sinais de alerta não devem ser ignorados
Os indicadores de saúde mental no ambiente de trabalho são os aspectos da organização que dizem respeito às condições e às relações de trabalho que podem afetar a saúde mental, física e social das pessoas. Sentimentos de ansiedade, depressão, irritabilidade, desânimo, perda de interesse pelo trabalho, incompetência e fracasso são sinais de alerta que podem vir acompanhados de manifestações psicossomáticas, como dores musculares, dor de cabeça, distúrbios gastrointestinais, alterações do sono e fadiga.
De acordo com Ana Letícia, lidar com esses sentimentos é um processo delicado que não deve ser ignorado. “A pessoa deve adotar algumas estratégias de cuidado e proteção, como legitimar e reconhecer que o sofrimento existe, tem sentido e que é preciso procurar ajuda”.
Nesse sentido, algumas ações podem ser adotadas de imediato, tais como:
- Romper o isolamento e buscar espaços de fala: falar sobre o que se vive no trabalho é fundamental;
- Compartilhar experiências com colegas de confiança, coletivos de trabalho ou espaços institucionais de escuta que permitam elaborar o sofrimento;
- Buscar apoio especializado quando necessário. Quando o sofrimento se intensifica, é importante procurar apoio profissional;
- Cultivar relações positivas: manter contato com familiares e amigos de confiança fortalece a rede de apoio;
- Praticar o autocuidado: reservar um tempo para atividades prazerosas e relaxantes promove uma sensação de bem-estar e tranquilidade.
Janeiro Branco
A campanha Janeiro Branco surgiu em 2014, em Minas Gerais. Ela foi idealizada pelo psicólogo Leonardo Abrahão como forma de colocar a saúde mental em foco, aproveitando o simbolismo de “página em branco” do primeiro mês do ano como momento de reflexão e recomeço.
Onde buscar ajuda
A saúde mental é parte integrante do Sistema Único de Saúde (SUS). Diversos serviços gratuitos estão disponíveis:
- Unidades Básicas de Saúde (UBS): o primeiro passo é buscar atendimento com um clínico geral na UBS mais próxima, que pode encaminhar o paciente a um psicólogo ou psiquiatra;
- Centros de Atenção Psicossocial (CAPS): oferecem atendimento especializado com equipes multidisciplinares;
- Clínicas-Escola de Psicologia: universidades que oferecem cursos de Psicologia dispõem de clínicas onde alunos supervisionados por professores oferecem atendimentos gratuitos ou a preços acessíveis; e
- Centro de Valorização da Vida (CVV): o CVV proporciona apoio emocional 24 horas por dia, por meio do telefone 188 ou pelo chat online no site oficial.
(Andrea Magalhães/CF)
Fonte TST

