Fake news: quando o Dia da Mentira dura o ano inteiro

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1º/4°2026 – Imagine que você acaba de se tornar o protagonista de um vídeo que nunca foi gravado. Em uma tela de celular qualquer, circula uma imagem sua, nítida e indiscreta, em uma situação que nunca existiu. Em pouco tempo, o que parecia absurdo começa a ser compartilhado como verdade. 

Se você é uma pessoa comum, os efeitos são devastadores para sua honra e sua reputação, mas sem maiores impactos coletivos. O cenário muda quando textos, imagens e vídeos falsos passam a mirar também as instituições que garantem o funcionamento de toda a vida em sociedade. 

A origem do Dia da Mentira (1º de abril) é tão antiga quanto as teorias sobre o pacto social, entre população e instituições. Uma das explicações mais difundidas remonta à França do século XVI, associada à transição do calendário juliano para o gregoriano. Quando o início do ano passou de abril para janeiro por decreto real, quem resistiu à mudança ou não foi informado a tempo continuou celebrando a data antiga e tornou-se alvo de zombarias. 

Ao longo dos anos, a prática de contar histórias falsas consolidou-se como forma de entretenimento. Hoje, no entanto, especialistas alertam sobre como a mentira perdeu o caráter lúdico e ocasional e ganhou escala, velocidade e propósito. Se antes era restrita a brincadeiras em 1º de abril, agora circula de forma contínua e estruturada.

“Bomba atômica” da informação

Para o professor Paulo José Cunha, da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), a diferença fundamental entre uma piada e uma notícia falsa está na intencionalidade. Ele explica que uma “mentira inofensiva” é feita para divertir, enquanto a fake news (notícia falsa) é produzida para provocar um dano real na imagem de uma pessoa ou instituição. 

“Embora boatos existam há séculos, como na era dos folhetos de papel utilizados para atacar a honra de candidatos adversários, o que muda drasticamente hoje é o poder de disseminação”, observa. 

A psicologia por trás do compartilhamento compulsivo revela um fenômeno que o professor compara a uma “bomba atômica”: quando alguém recebe uma informação de alto impacto emocional, a tendência é difundi-la ao máximo. “A bomba atômica é potente porque o átomo vai se fragmentando, e cada fragmento se divide novamente”, compara. “Esse efeito em cadeia explica por que a mentira circula com uma rapidez muito maior do que a verdade.”

Uma pesquisa do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) indica que notícias falsas têm 70% mais chances de serem replicadas do que as verdadeiras e alcançam as primeiras 1.500 pessoas seis vezes mais rápido. Isso acontece porque as fake news são estruturadas justamente para que as informações gerem impacto.

Estudos também indicam que o problema é agravado pelos hábitos de consumo atuais e pela estrutura das plataformas digitais. Nesse sentido, os algoritmos, que definem o que cada usuário vê com base no seu comportamento na plataforma, tendem a privilegiar o engajamento e o volume, em detrimento da qualidade ou da veracidade das informações. 

“Para a máquina, pouco importa se o conteúdo é uma mentira; o que interessa é o engajamento. Nesse ecossistema, o jornalismo profissional, orientado por protocolos de checagem e rechecagem, perde espaço para conteúdos impulsionados que chegam de maneira vigorosa e irresponsável aos usuários”, explica o professor Paulo José.

Um problema mais profundo

A situação tornou-se ainda mais complexa com a ascensão das deep fakes (mentiras profundas). “Se antes a desinformação se limitava a textos mentirosos, hoje a inteligência artificial permite criar áudios e vídeos onde é praticamente impossível distinguir o que é real ou não”, afirma Paulo José.

Nessa perspectiva, o Fórum Econômico Mundial, por meio do Global Risks Report 2024, classificou a informação falsa como o primeiro risco global a curto prazo, superando, inclusive, as mudanças climáticas e os conflitos armados. O relatório destaca que a desinformação pode desestabilizar economias inteiras, ao corroer a confiança nas instituições e afetar processos eleitorais.

No âmbito do Poder Judiciário, as fake news comprometem o acesso à justiça, como afirma o secretário de Comunicação do TST, Edney Martins. “Para a instituição Justiça do Trabalho, as notícias falsas comprometem muito a garantia e a efetividade da entrega do direito”.

Educação midiática e o papel da comunicação institucional

Diante de um cenário onde as manipulações sofisticadas são difíceis de serem identificadas, a educação midiática surge como uma prioridade. “É necessário educar as pessoas para o uso responsável das mídias e para a absorção crítica de conteúdos. É preciso buscar fontes jornalísticas confiáveis que trabalham sob o rigor ético da verificação”, pontua o professor Paulo José. 

Do ponto de vista institucional, o secretário de Comunicação do TST afirma que a existência de uma estrutura de comunicação pública vai além do dever de informar. Segundo Edney, trata-se de um compromisso com o interesse coletivo, que envolve não apenas o esclarecimento da sociedade, mas também a promoção de valores que fortalecem a República e a democracia. “Para o problema da desinformação, a resposta é intensificar, cada vez mais, tanto a quantidade quanto a qualidade da informação”, conclui.

(Sofia Martinello/CF)

Fonte TST